quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

RESENHA DO CONTO "O GATO PRETO" DE EDGAR ALLAN POE


A barbárie humana e a humanidade dos animais

Por Vânia Coelho

O conto de Poe traz elementos da própria vida do autor. Em O gato Preto, texto em primeira pessoa, o narrador-personagem afirma que necessita de contar sua história, hoje, porque amanhã já estará morto. Para alguns críticos, é a vida conturbada e adicta do contista que se revela em  O gato  Preto.
Utilizando-se de algumas definições medievais, tabus, conceitos populares e superstições, Poe cria uma atmosfera de terror e crime em que a personagem totalmente humanizada e amante de animais vai zoomorfizando-se gradativamente até tornar-se um assassino cínico, em potencial.
Desde o início, a começar pelo título, o autor brinca com a ideia de o gato ter a cor preta. O gato não é branco, nem cinza, nem malhado, é necessariamente, preto. Segundo os conceitos e paradigmas (ocidentais) alicerçados nas histórias populares, o gato é uma espécie de felino que traz azar e miséria devido o seu poder de ressurreição, ou seja, reza a lenda que o gato tem sete vidas, um ser quase imortal. Há, ainda, a ideia de que os gatos são, na realidade, bruxas disfarçadas. E o autor usa isso com maestria e genialidade, de modo a confundir o leitor mais desavisado e mal informado sobre superstições, lendas e tabus.
Na Idade Média, o gato era considerado um animal que deveria morrer, porque estava, necessária e fatalmente, ligado à libido feminina (desmedida, descontrolada e proibida) poderia desnortear um homem e destruir-lhe a vida. Isso significa que todas as tragédias e catástrofes da personagem (no conto) estariam ligadas à existência do gato preto, isto é, uma vez morto, a vida lhe mudaria da água para o vinho, transformando-se em tranquilidade e sorte excessivas.
Não é de hoje que a sociedade salientada, discretamente, na linha da história das civilizações, entre guerras, conflitos, invasões e conquistas, perdas e ganhos, que tudo o que envolve a cor preta estaria ligado ao sombrio, ao luto, ao azar, à desgraça, às pestes e doenças incuráveis, ao demônio, ao inferno, ao mundo inferior, subterrâneo, espaço dos mortos. Plutão, na mitologia romana, é o deus do mundo inferior, ou seja, do inferno.  Vale lembrar que a peste que avassalou a Europa e muitos outros continentes, chamava-se negra. O tráfico de pessoas, de coisas ilegais, de dinheiro e animais, chama-se, ainda hoje, tráfico negro, ou seja, fora da lei
Nas páginas da história do mundo, há uma mistura entre a cor preta e a etnia negra, a confusão proposital surgiu entre dominados e dominantes, épocas da escravidão, cujos senhores queriam ganhar dinheiro com mão de obra escrava e gratuita. Esses paradigmas que enquadram e engessam hierarquias sociais são o câncer das sociedades insanas, assim como a personagem de Poe que joga no gato preto a responsabilidade de suas irresponsabilidades, a fraqueza que possui na face espelhada da fortaleza do felino, fraqueza esta que não tem controle sobre a bebida: o vício dilacerante da razão e roedor da alma. Preto é apenas uma cor, nada mais.
Nesse sentido, com relação ao contexto da obra, tudo o que envolve a cor preta estaria, de uma forma ou de outra, ligada à marginalidade, ao absurdo, àquilo que é inaceitável, demoníaco, influenciável, destrutivo e, até mesmo, fatal. A própria mitologia mostra a morte representada por uma mulher de manto preto até os pés, cobrindo-lhe corpo e cabeça e com uma foice nas mãos. E por aí vai. Conhecedor de todos esses conceitos paradigmáticos, da história das crenças e das superstições, Poe elabora o conto O Gato Preto. A narrativa conta a história de um jovem bom, de caráter ético e alma bondosa que ama os animais.  Vive junto à família que o ama, e que, diariamente, dá e recebe amor aos animais e às pessoas com quem convive. É feliz e vive com tranquilidade.
Os pais desse jovem, como o amam muito, deixam que ele tenha todo tipo de bicho, uma vez que é apaixonado por animais e dedica parte da infância, adolescência e, até a maturidade, a amar e ser amado pela família e pelos animais. Segundo o conto, a personagem tinha cães, macaquinhos, coelhos, pássaros e gatos. Na vida adulta, conhece uma bela e doce mulher que ama os animais tanto quanto ele e apaixona-se por ela. Tempos depois, casam-se e vão morar numa bela casa. Parece um conto de fadas? Puro engano, caro leitor.
Como Aluísio de Azevedo e Machado de Assis, durante o Movimento Realista-Naturalista, no Brasil, Poe salienta os instintos humanos expostos cruamente, desnuda o homem-bicho e sua parte irracional perversa e doentia. Aluísio mostra a miserabilidade humana e as personalidades que vão se alterando devido ao meio, como por exemplo, a personagem Jerônimo do romance realista-naturalista O Cortiço, um luso que vem para o Rio de Janeiro, casado, trabalhador, religioso, ético e que, devido ao ambiente, torna-se um adúltero, um viciado em cachaça e um assassino, eis o determinismo de Taine a definir o homem como fruto do meio em que vive.
Poe vai levando o leitor a um imaginário árcade, cheio de bondade e de relações entre seres humanos e animais na mais completa harmonia. No entanto, gradativamente, mostra as mudanças da personagem que vão se moldando ao terror, a tudo que há de cruel e perverso em intensos graus, resultando num suspense de horror e terror que abala o leitor, surpreendido pela mudança de personalidade do jovem e da capacidade demoníaca que habita nela.
A personagem principal esbarra nas rédeas da loucura e da maldade, do crime hediondo e das ideias, também, hediondas, de como livrar-se de quem, segundo ele, atrapalhava-lhe a vida e o bom andamento das coisas. Poe apresenta uma personagem que vive às raias da maldade, mostrando os estados mentais e a mudança de consciência, provocada pelo uso excessivo do álcool.
O autor trabalha os elementos que compõem sua narrativa evidenciando os aspectos psicológicos e psíquicos do ser humano, da sanidade à insanidade, devido às alterações de personalidade, resultado do alcoolismo, vai tecendo, plano a plano, tais mudanças, o emocional desestruturado, o desequilíbrio, a fúria, o descontrole total de um homem que, de santo e amante de animais e da vida transmuta-se no próprio demônio: “uma fúria demoníaca apoderou-se instantaneamente de mim”.
Parece que é inerente ao ser humano a não evolução, a maturidade, responsabilidade, uma vez que, a maioria coloca a culpa dos próprios erros sempre no outro (alter) ou numa situação qualquer, mas nunca em si mesmo. Nunca analisa o caso como o único responsável por ele. São as mazelas humanas, a deterioração do ser, a transmutação do homem em ameba, em nada. É o processo de coisificação do início do século XX, com o advento da modernidade. É o niilismo de Nietzsche a mostrar como o homem é puro instinto, sem freio e sem razão.
Da sanidade à loucura, eis o processo da personagem de Poe, de uma espécie de São Francisco de Assis a Mefistófeles; passa irracional e insanamente a crer que o gato era a voz delatora que o havia entregado ao carrasco. E, se o leitor, entender o texto de Poe denotativamente, tende a crer que o gato foi mesmo o algoz que o entregou ao carrasco, no caso, à polícia e à condenação à morte, pois é o barulho felino que, junto com as mãos e a bengala fazem com que os investigadores descubram o cadáver.
Há, portanto, na narrativa de Poe, dezenas de elementos míticos e místicos, desde símbolos até as crenças e superstições populares. O nome do gato Plutão pode remeter, na mitologia grega, ao deus dos infernos. Outras simbologias estão embasadas nos paradigmas da história, como por exemplo, as múltiplas e variáveis representações do gato ao longo da história. Não obstante, no contexto de Poe, o gato se humaniza e o homem se zoomorfiza, como na literatura do luso Miguel Torga, na obra “Bichos”, em que os homens têm atitudes animalescas e, os animais, humanas, ou ainda, na obra do norte-americano George Orwell (1903-1950) “A revolução dos bichos”, momento e que, libertos da escravidão e da manipulação do homem, os animais se tornam homens e escravizam. Todo tirano já foi um dia tiranizado?
Mas, o que altera o comportamento da personagem de santo a assassino, de homem amante de animais a carrasco irônico e perverso, não é tão somente as questões psíquicas da mente humana ou de uma personalidade atormentada, doentia, mas o uso do álcool. A personagem voltava para casa sempre bêbada, cambaleando e acreditava que, tudo o quanto ocorria de ruim com ele, como por exemplo, um simples tropeção, o culpado era o gato preto. Mas, o que é o alcoolismo senão a transformação do homem em nada. O alcoolista perde a consciência, pois a tem alterada, por isso se transforma, transmuta-se, bate, briga, cai, levanta, e até mata. É um verme, um nada psíquico que vai enlouquecendo e demonizando-se, gradativamente. Quanto mais bebe, mas enlouquece, mas se demoniza.
Sabe-se, hoje, que o uso excessivo da bebida é um túnel que não tem luz nem final feliz. As Delegacias da Mulher registram inúmeros casos de homens que chegam em casa bêbados e espancam suas esposas e, quando estão sóbrios, nem se lembram do que aconteceu e, ao ficarem sabendo, afogam-se na bebida novamente para se esquecer da vergonha, e assim vai, envergonhando-se a si mesmo, caminhando na contramão de direção.
No caso da personagem do conto, a sua tênue consciência afronta-o por meio do primeiro gato e, depois, da mancha que o segundo gato tem no peito, que lhe traz a ideia da palavra forca, tornando-o, ainda, mais confuso e perturbado. E, tentando libertar-se dessa perturbação e, ao mesmo tempo, punindo-se, violando a lei e as normas sociais e religiosas, vai cometendo atos de crueldade e requintes de perversidade. Isso ocorre quando fura o olho de Plutão, depois, não sossegado, enforca o gato num galho de árvore.
Volta a arrepender-se e encontra outro gato preto para substituir Plutão, no entanto, este segundo gato preto, com uma mancha branca no peito, torna-se, também, alvo de sua desestrutura e insanidade. O narrador-personagem conta com tranquilidade, clareza e de forma bastante prolixa, como foi a sua vida e como ela foi se modificando, tornando-o um assassino em potencial. Narra desde a  infância no seio familiar, a relação amorosa que tinha com os animais, o casamento com a esposa bela e doce até a morte do gato Plutão, o assassinato da esposa e a lógica que usou para ocultar o cadáver, como foi tendo uma sequência de ideias que pudessem livrá-lo do corpo morto da esposa querida, entre aspas.
 Narra, ainda, com astúcia e sem arrependimento algum, como queria matar o segundo gato preto com manchas brancas no peito que lembravam o nome forca e, como, por não ter equilíbrio, de como ele próprio, mas culpando o gato, ainda, bate na parede, cuja doce cônjuge está, literalmente, acimentada, no meio de tijolos, argamassa e reboco.
É uma narrativa ulterior, ou seja, a história que nela se apresenta já ocorreu, é o passado que a personagem relata sobre a própria vida e os atos que cometeu, a embriaguez, os estados de irritabilidade, descontrole e as agressões, pois numa das vezes em que estava bêbado, chega a esbofetear a esposa, isso significa que a maldade era geral, usava-a com quem estivesse à sua frente, devidos aos problemas psíquicos gerados pelo alcoolismo.
Há três espaços que se podem destacar, o da infância vivendo com os animais harmoniosamente e com a família; o da rua em que o segundo gato lhe segue, e o interno, dentro de casa, na adega e no porão, após o incêndio na casa, tragédia esta que lhe deixa na miséria, pois a personagem perde tudo: casa, móveis, roupas pessoais, de cama, mesa e banho, cobertores, utensílios etc.
Segundo a dissertação de mestrado de Rubens Martins da Silva, intitulado “Elementos narrativos em O gato Preto de Poe”, o conto pode até seguir uma narrativa simples, mas é ímpar, singular e nada trivial e apresenta-se de forma triádica: a existência, a personagem e o homem. É na relação homem-animal que os seres se transmutam e, nessa mudança, troca o processo de racionalidade pelo instinto, pela miserabilidade e decadência humanas, cujo homem é lobo do homem e ninguém escapa.
Edgar Allan Poe (1809-1849) é norte-americano, nasceu em Boston em 19 de janeiro, órfão de pai e mãe (um casal de atores mambembes) é adotado por uma família de escoceses de sobrenome Allan, que Poe passaria a utilizar. O outro sobrenome “Poe” era do pai, descendente de irlandês, David Poe. Teve vida atormentada e desordenada, ganhou e perdeu dinheiro, amou e viveu entre as prostitutas, o ópio e a bebida. Escreveu dezenas de contos, poesias, como por exemplo, o famoso e conhecidíssimo “O Corvo”, novelas e alguns romances, ganhou prêmios e escreveu para várias mídias.
Morreu antes de completar 40 anos, devido ao alcoolismo. É considerado o pai da literatura de suspense, detetivesca, misteriosa e macabra. Inaugura a literatura policial e, criando o excêntrico C. Auguste Dupin, abre espaço para a personagem conhecida por Sherlock Holmes, hoje, nos cinemas, com Jude Law, no papel do médico caro Watson.




Postar um comentário

FRED MERCURY

Loading...

CHRIS ISAACK

Loading...

Arte, Comunicação e Jornalismo

Jornalista, escritora, docente, mãe e, principalmente, avó de João e Letícia

Minha foto

Vânia Coelho é jornalista e docente no curso de Jornalismo. Adora literatura e é leitora de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Caio Fernando Abreu, Marcelino Freire, Fialho de Almeida, James Joyce, Marguerite Duras, Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa, Virgínia Woolf entre outros
 
 Autora dos livros: Aspectos Teóricos Teóricos da Linguística, Ritos Encantatórios, Costureira dos Malditos, a peça de teatro Café com Sartre, os contos O velho e a Moça; Querida, eu te amo; Saigon; Pássaros que sobrevoam os ares de Hiroshima; Das trevas à luz.  Resenhas do poema "O Corvo" de Edgar Allan Poe e do filme francês A elegância do Porco Espinho de Achache. Escreveu o primeiro  romance "Os Inocêncios"  (2012).
 
Mãe da cantora Nanda Coelho e do comerciante Rafael Coelho, pai de seus dois netos.
 
Orientadora de TCC no curso de Jornalismo, cuja produção trata de uma grande reportagem no formato impresso (livro-reportagem)
 
Escreve, atualmente, uma antologia de contos.